Eu
sei que receita é coisa para escrever ingredientes e a seguir contar o modo de
executar, e isso quer seja receita de bolo ou receita de médico.
Não
tem outro processo nem me parece que necessite outros contos que não sejam
explicitar:
coloque
dois pingos, um em cada olho
ou
adicione
os ovos, um a um, batendo bem, entre eles.
Receita
é escrita simples: isto, mais aquilo, deste e daquele modo.
Ora
eu prometi que enviava a receita do bolo aos comensais de domingo, e nesse propósito sentei-me aqui a
digitá-la porque a tinha apenas manuscrita no meu caderninho das receitas de
que eu gosto muito.
Foi deste modo, a escrever os ingredientes, que me deu aquele senão que faz de uma receita usada tantas vezes, uma outra
receita que até deu bom resultado.
Mas antes, deixem que vos conte.
Olhem estas duas versões de ingredientes, de entre os muitos ditos Bolo
de laranja com casca que andam pela net.
Versão 1
1 laranja média
1 xícara de chá de óleo
4 ovos
2 xícaras de chá de açúcar
2 xícaras de chá de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
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Versão 2
2 laranjas médias
1 xícara(s) (chá) de óleo de milho
3 ovos
2 xícara(s) (chá) de açúcar
2 xícara(s) (chá) de farinha de trigo
1 colher(es) (sopa) de fermento em pó
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Se
leram com cuidado, hão-de ter notado que, de uma receita a outra, variam quase
nada as quantidades, e a proporção de citrino e ovos é de um para quatro ou de
dois para três. Não
anda longe, na receita que eu tenho manuscrita, na qual essa relação é de um
para dois. Aumenta um pouco, mas nada em demasia.
Em
todos as receitas, apenas uma laranja ou duas partidas aos quartos sem o veio
central e sem caroços.
E eu a ler não tinha como ter engano. Está lá
escarrapachado, escrito com a minha letrinha: duas laranjas e quatro ovos.
Mas
a realidade mostrou-se bem diferente enquanto eu elaborava a receita para enviar, a pedido.
A realidade tinha sido outra, no domingo a preparar o lanche.
De
caderno aberto em cima da bancada da cozinha, preparara uma forma untada com
manteiga e polvilhada de farinha, e alinhara os ingredientes: o óleo, o
açúcar, a farinha de trigo e o fermento, e tinha ido buscar os ovos.
E é aqui, acho eu, agora, que começa a história.
Acontece
que eu tinha só três ovos em vez dos quatro necessários. E com esse número
quatro baloiçando no meu desolamento por não ter, tal e qual, o que a receita
pedia, corri a buscar laranjas da fruteira:uma, duas, três e quatro. Tratei-as, e fui colocando os
ingredientes na misturadora: os ovos inteiros, as duas chávenas de açúcar, a
chávena de óleo e, já lavadas e cortadas em gomos, e nem foi preciso tirar-lhes
mais nada que não tinham veio central nem carocinhos, tentei colocar as laranjas.
Diacho!
Não cabem! – terei murmurado, e empurrei um pouco.
De
outras vezes não aconteceu isto! – terei pensado eu sem achar graça nenhuma.
E conjeturando
que as laranjas seriam ser maiores do que em outras vezes, lá me enchi de paciência e pus a misturadora
a funcionar apenas com metade dos frutos, e só depois acrescentei o que, eu nem me tinha
sequer interrogado, se seria ou não a dose certa, eu sabia que eram quatro laranjas inteiras partidas aos quartos que,
como já deduziram, não era, coisíssima nenhuma o que estava escrito na receita…
Depois
de tudo bem amalgamado na liquidificadora ficou-me uma massa espessa e abundante, o que me foi estranho, e até pensei, estupefacta: mas se só usei três
ovos! Mas, expedita, depois de misturar a farinha a que juntara o fermento, o que
fiz numa malga aparte, fui, correndo, untar outra forma e distribuir
a massa por ela e pela que já tinha preparado.
Ficara mais um bolinho e apenas com três ovos!!
Dois bolos daquele
de que tinham gostado o suficiente para quererem a receita, e de que tinham inquirido: que é este polvilhado que tem em cima?!
Ora
bem! o pó que viram e degustaram mais não era do que excesso de casca de tanta laranja!!
Por
isso, se quiserem um bolo COMO AQUELE que comeram no domingo, preparem uma forma GRANDE e usem QUATRO LARANJAS e TRÊS OVOS.
Divirtam-se
e que o bolo fique bom e vos faça bom proveito.
Mas
eu ainda assim prefiro aquele que está ali na receita manuscrita e que deixo aqui na foto.
